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Clipping do dia:      13/02/2006
Data de veiculação: 12/02/2006

Diário do Grande ABC

Transtorno de sofrer de síndrome do pânico

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Tipo de transtorno de ansiedade, a síndrome do pânico (que também é chamada transtorno do pânico) atinge mais de 4% da população mundial, número que se reflete também no Brasil

Veículo: Diário do Grande ABC
Seção: Capa
Data: 12/02/2006
Estado: SP

Quando a grande imprensa noticiou que o furacão Gisele Bündchen tratava de síndrome do pânico em Nova York, muitos duvidaram, por diversos motivos. Top bem-sucedida, é linda, tem o maior cachê do mundo fashion, segundo a revista norte-americana Forbes e faz questão de mostrar que é moça de família, apesar de viver cercada por muito glamour. Antes de desfilar para a Colcci no último Fashion Rio, em janeiro, foi flagrada no maior clima romântico com o surfista campeão Kelly Slater, em pleno Havaí. Em resumo: a vida da moça não daria margem a esse tipo de problema. Embora a IMG Models, que representa a modelo, não tenha confirmado ou negado a informação (a assessoria informou que a agência não se pronunciaria), o buchicho serve para mostrar que o mal não escolhe profissão, classe social ou estado de espírito para se manifestar.
Tipo de transtorno de ansiedade, a síndrome do pânico (que também é chamada transtorno do pânico) atinge mais de 4% da população mundial, número que se reflete também no Brasil. Os sintomas são um coquetel de sensações desagradáveis: taquicardia, falta de ar, muita angústia, sono sobressaltado e um turbilhão de medos infundados, principalmente de morrer, de enlouquecer e de ficar sozinho. Apesar de intensa, a crise costuma não ultrapassar 40 minutos. E mais impressionante: os piores ataques não costumam ocorrer depois de um dia estressante. Quem sofre com o pânico relata que, por vezes, as piores crises ocorreram em momentos de descanso. O diagnóstico costuma ocorrer quando quatro ou mais sintomas se associam sem nenhum agente desencadeante.
Mas o que explica esse desconforto indescritível que surge do nada e faz acreditar que a morte está perto? “As pesquisas sobre síndrome do pânico são muito heterogêneas”, explica a psiquiatra Fernanda Piotto Pralonardo, do Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André. “Há indícios de que há alterações em algumas regiões do cérebro, fazendo com que os neurotransmissores (dopamina, noradrenalina e serotonina) trabalhem de forma desregulada. Mas também há correntes que dizem que o meio é extremamente importante para o desenvolvimento da doença, se a família traz fatores muito ansiogênicos (que causam ansiedade)”, completa Fernanda. A psiquiatra Laura Guerra de Andrade, do Hospital das Clínicas, diz que freqüentemente a síndrome é associada à depressão e outras neuroses.
Alguns estudos mostram também que enquanto duas mulheres apresentam os sintomas, apenas um homem vem a desenvolvê-los. O que não quer dizer necessariamente que o sexo feminino seja mais suscetível. “Encontramos uma prevalência maior entre as mulheres, já que elas são mais abertas. Talvez o número de homens não reflita em uma pesquisa epidemiológica por causa do receio de serem tachados de fracos”, afirma o psiquiatra do Hospital das Clínicas, Tito Paes de Barros Neto. Pesquisa da psiquiatra Laura Guerra de Andrade realizada no entorno do HC durante os anos 90 mostra números semelhantes.

Tratamento
A ajuda é imprescindível, por isso a necessidade de identificar a doença rapidamente. Os sintomas são motivo de vergonha para quem sofre e muitas dúvidas para familiares e amigos. O tratamento costuma unir o trabalho de psiquiatras e psicólogos. Na fase mais aguda, é necessário tomar antidepressivos para regular a ação dos neurotransmissores. A psicoterapia vai ajudar o paciente a reconhecer quando um ataque está chegando e tentar se manter mais calmo. A linha mais utilizada é a comportamental cognitiva de exposição, em que a pessoa é estimulada a enfrentar os pontos mais difíceis da síndrome, inclusive fobias que são agregadas por conta da freqüência das crises.
A psicóloga Rosana Laiza, presidente da Associação Nacional de Síndrome do Pânico, que fica em São Paulo, aposta no treinamento autógeno como uma das técnicas mais eficazes. O tratamento costuma se estender de seis meses a um ano. A doença é encarada como crônica pelos psiquiatras, ou seja, os sintomas podem reaparecer em menor intensidade, mas com as técnicas aprendidas, o paciente pode viver sem grandes crises, dizem. Já a psicóloga Rosana acredita que se pode falar em cura. “A síndrome do pânico está no grupo das neuroses, que são curáveis. As técnicas permitem isso”, diz.

Sintomas mais freqüentes
(o diagnóstico é feito quando quatro ou mais sintomas se apresentam sem motivo aparente)
- medo súbito de morrer (sem que exista nenhum motivo real);
- medo de perder o controle;
- taquicardia;
- tremor de braços e pernas;
- sensação de desmaio;
- sudorese;
- falta de ar ou sufocamento;
- despersonalização (sensação de desligamento da realidade, a pessoa acha que está sonhando);
- vertigem

O que ocorre no corpo:
Semelhante a uma situação em que o perigo é enorme (como em um seqüestro, por exemplo), em um ataque de pânico há uma forte descarga de adrenalina no corpo que provoca:
- contração momentânea das artérias;
- subida da pressão arterial;
- palidez nas extremidades (pés e mãos)

Crises não causam danos físicos
Uma das grandes dúvidas de quem se trata da síndrome do pânico é se a constância dos ataques não pode levar a danos permanentes ao coração e a outros órgãos, dada a intensidade das descargas de adrenalina. Porém, as crises não podem levar ninguém à morte, por mais que a sensação que a vida esteja escorrendo pelos dedos seja muito forte.
“A não ser que já exista um grande problema de base, ninguém vai ter problemas do coração por conta do aumento da pressão e taquicardia”, afirma o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto. A sobrecarga é momentânea, o que não livra pacientes que têm grande carga hereditária de males cardíacos a fazer prevenção.

Diagnóstico de empresário demorou quase 50 anos
“Desde os 14 anos tenho os sintomas de síndrome do pânico, mas só há nove obtive um diagnóstico. Ninguém sabia o que era. Sofria com o sintomas e quase morri ao passar por um cateterismo aos 18 anos, exame pré-operatório que na época era novidade. O médico desconfiava que teria de fazer uma cirurgia. O catéter estava contaminado. Depois do susto, descobriu-se que não havia problema nenhum. Diagnosticaram epilepsia, tumor cerebral... Tudo errado.
Por conta disso tomei diversos medicamentos que não eram necessários. Convivi com o problema a minha vida inteira e as piores crises ocorriam quando eu estava de folga. Uma vez estava na praia com a minha mulher, relaxado e veio a crise. Foi uma das piores. Quando descobri o que tinha, passei a pesquisar sobre isso.
Escrevi o livro Tenho a Síndrome do Pânico, Mas Ela Não Me Tem, que já está na terceira edição. Trabalhava como empresário, mas deixei tudo para me dedicar ao grupo em Belo Horizonte e dar palestras. Hoje vivo sem crises”
Fernando Mineiro, 60 anos, Belo Horizonte, MG

Estudo relaciona hipoglicemia ao transtorno do pânico
O médico homeopata Celso Batello, de Santo André, publicou estudo que relaciona o transtorno do pânico à hipoglicemia. “Entre 50% a 60% dos pacientes que sofriam de síndrome do pânico apresentavam também quadro de hipoglicemia. A falta de açúcar provoca sensações de morte iminente também”, afirma o médico. Por isso, ele aconselha que ao receber o diagnóstico do psiquiatra, se faça exame específico para medir o nível de açúcar no sangue. De acordo com o médico, estamos acostumados a ingerir muito açúcar desde criança, o que acostuma o córtex a liberar muita insulina. “Isso deve ser corrigido, para evitar grandes quantidades de açúcares na alimentação, principalmente para as crianças”, diz Batello.

”Fiquei claustrofóbica”
“Aos 20 anos, comecei a fazer tratamento contra transtorno de ansiedade com psicólogo. Estava ficando claustrofóbica, não dormia direito e morria de medo de ficar em lugares muito cheios. Meu problema eram as baladas. Chegava e procurava ficar perto da porta, porque pensava que, se algo acontecesse, eu poderia sair rapidamente do lugar. Procurei tratamento depois de seis meses que os sintomas começaram.
Acho que tudo teve início após passar mal em um bar. Estava lotado e muito abafado, minha pressão caiu e eu tive de sair correndo. Acho que aquilo gravou e não conseguia ficar bem. A princípio, o psicólogo acreditou que não era necessário que eu fizesse acompanhamento psiquiátrico, até que tive uma crise quando saía de casa para ir para a faculdade e contei para o terapeuta. Fui encaminhada para o psiquiatra e passei a tomar antidepressivo e calmante.
Foi difícil para mim aceitar que aos 20 anos eu tinha de tomar antidepressivo. Não queria mais viajar, queria ficar perto dos meus pais, porque ficava bem em casa. O médico disse que provavelmente as crises foram provocadas por remédios para emagrecer, que tomei por um tempo. Tanto que ele me proibiu de tomar de novo. Hoje, estou bem”,
Flávia*, 23 anos, Santo André
* O nome foi trocado a pedido da entrevistada.

Diferença entre o pânico e as crises de ansiedade
Além dos 4% de brasileiros que foram diagnosticados como portadores de síndrome do pânico, há toda uma população que acredita sofrer do mal por confundir a síndrome com fobias específicas ou crises de ansiedade provocadas por situações de muito estresse. O psiquiatra Miguel Roberto Jorge, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que boa parte dos pacientes que procuram tratamento para uma possível “síndrome de pânico” não são diagnosticados dessa forma.
“Muitos ficam extremamente ansiosos diante de alguns fatos estressantes, como falar em público, viajar de avião e outros. Quando a ansiedade se concentra nessas situações, não é pânico. Porque sem o agente estressante, a ansiedade some. A síndrome do pânico não depende desses episódios”, explica o psiquiatra.
Comum também é confundir agorafobia (medo de enfrentar lugares abertos) com a síndrome do pânico. “Em geral as pessoas desenvolvem as fobias após as primeiras crises de pânico. Evitam voltar a lugares em que há muitas pessoas ou dirigir se tiveram algum crise nessas situações”. Certeza é que a síndrome não escolhe lugar para ocorrer. Assim como a síndrome do pânico, ataques de ansiedade e fobias são tratáveis.

“Achava que estava ficando louca”
“Comecei a apresentar os sintomas de síndrome do pânico no fim de 2001. Na verdade não percebi que eu tinha a doença. Estava em uma fase boa, namorava, trabalhava, mas essas crises começaram. Me isolava, chorava todas as noites e sofria muito de angústia, mas não sabia o que estava acontecendo. Não conseguia mais dormir porque tinha um medo tremendo de morrer sozinha. Se subia as escadas para o andar de cima da casa, tinha medo de descer.
Tinha medo de tomar banho, porque o xampu poderia cair nos meus olhos e deixar a visão escurecida e não teria ninguém para me ajudar. As crises vinham do nada. Às vezes estava normalmente em casa, mas ficava angustiada. Parei de dirigir, porque tinha certeza de que algo ruim aconteceria. Achava que estava ficando louca e ninguém entendia o que acontecia. Algumas achavam que era frescura, outras não sabiam o que fazer. Já sou hipertensa e com os ataques, a pressão chegava a 22 por 17. Por causa do mal-estar, passei a ir sempre ao médico, até que uma doutora disse pela primeira vez o que poderia ser: síndrome do pânico.
Fui ao psiquiatra e ao psicólogo, passei a tomar medicamentos e fiquei mais tranqüila. Mas sei que sozinha não conseguiria. Sempre pedia que alguém segurasse minha mão. Com a terapia, aprendi a controlar as crises. Às vezes sinto um ou outro sintoma e até um medo de que tudo volte, mas sei que posso evitar ficar pior. Levo uma vida normal, sem sustos”
SHEILA REIS, 32 anos, recepcionista, Santo André

“Consultei 11 especialistas”
“O diagnóstico da síndrome do pânico veio em 1995, depois de cinco anos com os sintomas e 11 especialistas consultados. Passei de ginecologista a clínico-geral. Assusta muito, porque você está bem, conversando, e vem aquela taquicardia. É avassalador, a sensação de morte iminente, sufocação, adormecimento nas mãos e a necessidade de buscar ajuda a todo custo. Sempre pensava: “Por que eu?”.
Tinha muita vertigem e era complicado quando as crises aconteciam em lugar público, porque eu tinha de deitar ou buscar um refúgio rápido. Uma vez estava escrevendo uma matéria e senti pânico, deitei no chão e pedi para as pessoas ao redor ficarem calmas, porque logo estaria bem. Só precisava ficar um tempinho deitada. Tive sorte porque não desenvolvi agorafobia. Tentei fugir da alopatia, mas só o remédio resolveu. É um distúrbio e eu vivo bem, não tenho nenhum preconceito.
Tenho receio da questão da hereditariedade, cuido para que minhas filhas não desenvolvam, porque se o ambiente não for propício, as chances diminuem. Fiz terapia cognitiva comportamental e tradicional. Aprendi mais com a cognitiva, porque ensina a driblar os sintomas no começo.”
IVANILDE SITTA, 44 anos, jornalista, Santo André

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