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Clipping do dia:      06/09/2005
Data de veiculação: 04/09/2005

Fantástico

Uma doença chamada corrupção

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Acredite se quiser, mas corrupção é uma doença, um transtorno de personalidade, com três tipos de classificação e sintomas claros. E o pior: não tem cura.

Veículo: Fantástico
Seção: Reportagens
Data: 04/09/2005
Estado: Nacional

Se andando por aí você encontrar alguém com estas características: inteligente, esperto, sedutor. “São pessoas inteligentes, com facilidade de comunicação”, constata João Augusto Figueiro, psiquiatra do Hospital das Clínicas.
Cuidado! Esse tipo está por toda parte, até próximo ao poder! E oferece perigo!Sim, ele é o famoso corrupto!
Para a psiquiatria, só pode ser considerada uma pessoa normal aquela que não mata, não estupra e não comete atos ilícitos como a corrupção. Sendo assim, em princípio, todo corrupto sofreria de um transtorno de personalidade.
“Tem alguma coisa no desenvolvimento mental que não foi adequado. Ele é um doente mental”, atesta o psiquiatra.
“Tem três transtornos de personalidade nas quais o indivíduo corrupto freqüentemente se encaixa: transtorno de personalidade anti-social, transtorno narcísico e o transtorno borderline de personalidade”, explica o psiquiatra João Augusto Figueiro.
O corrupto anti-social é aquele que transgride a lei sem se importar com o prejuízo que está causando ao outro, e sem nenhuma culpa por isso. Quer levar vantagem em tudo. “É o indivíduo que fura fila, pára em fila dupla, que suborna o guarda”, aponta João Augusto.
O corrupto borderline é impulsivo e facilmente se descontrola. Instável, passa do amor ao ódio em segundos. “São as pessoas, por exemplo, que tem relações como se diz por aí, entre tapas e beijos”, explica o médico.
O corrupto narcísico tem mania de grandeza e uma enorme necessidade de ser admirado o tempo todo. É facilmente encontrado na política e na religião. Diz que tem uma missão salvadora. “É o indivíduo que, mesmo perdendo o poder, não perde a pose”, diz o médico.
Jorgina dos Santos: ex-advogada, condenada por desvio de US$ 200 milhões da Previdência; Nicolau dos Santos: ex-juiz, condenado por desvio de R$ 168 milhões dos cofres públicos; Hildebrando Paschoal: ex-deputado, condenado por liderar o crime organizado no Acre.
Um político que chega honesto no poder e se corrompe. Ele já tinha esse transtorno de personalidade, ou isso aconteceu diante da possibilidade? “Tem o ditado que diz: a ocasião faz o ladrão. Mas nem todas as pessoas dentro de ocasiões favoráveis vão roubar”, responde o psiquiatra.
Para o João Augusto, o corrupto já nasce corrupto: “Todos os transtornos de personalidade têm um aspecto genético. Mas a contribuição do ambiente, de um ambiente permissivo no desenvolvimento nesse tipo de comportamento é importante também. O fator ambiental pesa mais que o genético”.
Sendo assim, como será que os brasileiros reagiriam diante de uma “tentação"? Uma pesquisa com 400 paulistanos entre 14 e 65 anos de idade, feita nos meses de junho e julho desse ano, perguntou: você aceitaria o mensalão?
“De jeito nenhum”, afirma um jovem. “Está todo mundo atrás desse mensalão. Por que não?”, defende outro jovem. “Estando lá, ou você aceita e colabora com eles, ou você é excluído. Eu acho que aceitaria”, confessa um homem.
No total, 48% responderam que sim, aceitariam o mensalão. E 43% responderam que não.
Quer saber se você tem tendência a ser um corrupto? Então, faça esse teste, responda sinceramente sim ou não as seguintes questões.
Quando o médico ou o dentista diz: “Com recibo ou sem recibo? Sem recibo é mais barato", o que você responde?
“Eu vou sem o recibo. É mais barato”, afirma uma jovem. “Não, por causa do imposto. Cada serviço prestado tem que pagar o imposto devido”, defende um homem.
Você dá dinheiro a um guarda para se livrar de uma multa?
“Quer sinceridade? Acho que sim”, diz um homem. “Graças a Deus, nunca subornei guarda”, afirma um senhor.
Você registra a Carteira de Trabalho de um funcionário, como empregada doméstica, por exemplo, por um valor menor do que ela realmente recebe para pagar menos Previdência?
“Com certeza, eu faria, porque é melhor que ela receba mais do dinheiro do que eu dê para o governo”, afirma um homem.
Quem respondeu sim a alguma dessas perguntas, segundo o psiquiatra João Augusto Figueiro, “tem maior tendência a ser um corrupto, a ter um comportamento corruptível”.
E pior: “O comportamento corrupto é algo que deve ser considerado completamente irreversível e incurável. O que a sociedade deve fazer é conter essas pessoas limitando seus poderes, sejam poderes políticos ou profissionais, para que eles não tenham um cenário, um contexto favorável ao exercício da corrupção”.

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